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Notas dos dias nublados

20/04/2018

 

Tem os dias ruins e os piores.

Tá difícil aguentar a arrebentação.

Quando me tornei essa pessoa que não suporta ser confrontada?

A natação foi a melhor coisa que fiz nos últimos tempos.

 

[Sea battle, um quadro do Kandinsky que gostaria de ver antes de morrer]

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2.1

01/04/2018

21 anos da morte da minha mãe.

1° de Abril, o dia da verdade.

Com mais dois anos ultrapasso a idade dela. Chego finalmente aos 35. Tenho esperança de espiar ao menos parte dessas sombras que me perseguem quando isso acontecer.

Faltam dois anos. Ainda falta muito pra tudo mais.

O tempo só passa rápido para os ignorantes.

as férias de 2018

12/03/2018

não tirava férias há algum tempo. quer dizer, tirava, mas usava o período para me dedicar à tese desde 2015.

que senso de oportunidade foi marcar as férias para fevereiro de 2018!!! o turbilhão que se aproxima demonstrou que era a hora certa. viver é uma merda, mas às vezes dou uma dentro.

 

***

o ranking dos livros das férias:

  1. como se fumasse, marcelo mirisola
  2. viva a língua brasileira, sérgio rodrigues
  3. a hipótese humana, alberto mussa
  4. confesso que perdi, juca kfouri
  5. o frango ensopado da minha mãe, nina horta

***

o ranking das comidas:

1. moqueca de siri com camarão, aconchego da zuzu, salvador

2. cordeiro na brasa, bar do cuscuz, joão pessoa

3. moqueca de lagosta, boca de galinha, salvador

4. camarão frito, barraca de praia de barra de são miguel

5. beiju com queijo, tropos, salvador

 

***

uma das lembranças mais vivas que tenho da minha infância com amanda é das noites que dividíamos a cama.

nosso quarto era pequeno. a antiga “dependência reversível”. eram dependências que tinham uma porta para a sala dos apartamentos de um quarto. o cômodo, localizado estrategicamente na planta, poderia ser um segundo quarto ou o famigerado “quartinho” (recuso-me a complementar). lá em casa era segundo quarto, o nosso.

a porta que dava pra cozinha não chegou a ser fechada com parede. era meio tampada pelo armário. o quarto não tinha porta e era acessado diretamente pelo pequeníssimo corredor que se fazia na lateral da sala. sem porta porque não cabia, já que era todo planejado. à esquerda da entrada estava o armário de mogno. cinco portas estreitas. duas minhas, duas de amanda, uma de vânia. esse armário ia até o final da parede, impedindo que se abrisse a porta dos fundos que dava de frente para a entrada. em frente ao armário, duas cama, uma de cada lado. a da esquerda encostava numa janelinha gradeada e com vidro, situada ao lado da porta que não abria. as camas também eram de mogno e essa primeira tinha dois grandes gavetões embaixo. em um deles ficavam guardadas roupas de cama, no outro, brinquedos. embaixo da cama da direita havia uma porta de correr que ocultava outro depósito de brinquedos. entre as duas camas um criado mudo com duas gavetinhas. acima, três prateleiras, uma para cada cama e outra no meio.

abaixo das prateleiras, nas paredes, era possível ler em letras de gesso: amanda e marianna. as letras tinha cor rosa, verde e azul. uma cama tinha um colchão rosa e a outra um colchão azul. eram de molas e por isso se desgastaram muito com o tempo.

alguns anos antes de sairmos de salvador, os colchões tinham buracos muito grandes. ficaram desconfortáveis. aproveitávamos os sumiços do meu pai pra dormir no quarto dele, na cama grande e com colchão conservado. mas foram muitas as noites em que dividimos o quartinho menor, enquanto meu pai ocupava a cama de casal. eram noites sempre longas, soturnas, cheias de silêncio e sombras. faltava minha mãe, estava o pai que queríamos longe. faltava tudo.

era comum que nessas noites nos acomodássemos juntas, em uma das camas. desenvolvemos uma ótima técnica. as duas dormiam em meia lua, uma de frente pra outra, para fugir do buraco no meio. sim, preferíamos a cama com o buraco no meio. a que tinha o buraco na lateral parecia pior. nos abraçávamos na altura do peito, a barriga e as pernas recuavam, mas usualmente nossos pés se encontravam embaixo. formávamos um 0, com o buraco do colchão no meio.

o buraco era um barrigão entre nós. estávamos grávidas de uma vida que não tínhamos. mas que viríamos a ter.

o meu maior medo com a partida de amanda é precisamente este: quem vou abraçar nas noites de sombras? quem vai gestar vida nova comigo?

***

não posso mais beber.

não consigo mais amar.

tenho andado com muito medo.

tenho andado esquecida.

a vida é um pavor

05/02/2017

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dia desses conversava com 3 colegas de trabalho. com dois tenho relativa intimidade e havia um terceiro que veio de SP. ele tem intimidade com os outros dois e mal me conhecia, vamos chamá-lo de Pi

entramos no papo sobre a vida íntima de Pi. resumo de fracasso piano: casado, filho de três meses, decisão de acabar com casamento antes do filho nascer, saiu de casa, voltou, trai a mulher com outra desde que saiu de casa, faltando semanas pro filho nascer. ou seja: filho é um pouco mais jovem que a relação com a amante. o casamento com a mulher tem 3 anos.

Pi dizia que busca coragem diariamente para se separar mas não consegue. Tem o filho que ele não cogita morar separado. A amante trabalha em outra cidade e vai a SP em média duas vezes por mês. Quando ele provavelmente transa com ela no horário de trabalho. Pi não admitiu isso porque uma das pessoas que estavam no papo é meio que sua chefe.

os comentários variaram da superficialidade à ingenuidade. quase me deram sono. “ela não merece”, ops, vc conhece alguém que merece ter um filho com um covarde e ser traída por ele? “a verdade é sempre o melhor” zzzzzzz… “vc precisa deixar a amante imediatamente”, e vc? quando deixou de fazer algo que precisava deixar de fazer? desde comer lata de leite condensado na madrugada, até usar o x-video compulsivamente, deixar de procrastinar ou de pegar dinheiro que não é seu no caixa da empresa com recibos fake de táxi que te levam pra casa quando não deviam?

eu comentei rapidamente. disse que na minha opinião ele devia focar em não deixar a esposa saber e em ser um bom pai. já que ele é covarde pra deixar a esposa, melhor ir tocando isso bem discreto e com cuidado com a criança. a amante é perfeita já que vai pouco à cidade. com o tempo, ele ia se sentir seguro para deixá-la. as pessoas se assustaram comigo.


eu realmente não entendo como ainda tem gente que acredita em coisas como “felicidade”, “verdade” ou “honestidade” como se essas coisas não fossem relativas, históricas e carecessem de contexto.

bom, geralmente são as mesmas pessoas que descobrem que apesar de terem um emprego, um casamento, uma casa e um filho sua vida segue medíocre. ops! porque somos todos medíocres e elas serão sempre medíocres? o desafio pra mim é não procurar ser menos medíocre, mas no processo ir encontrando as saídas para não se defrontar com o próprio fracasso diariamente. e isso não está em grandes fórmulas. está só em tocar o barco mesmo. o problema da grande fórmula é que ela te vende a solução. quando a solução se mostra só uma água com açúcar o mundo se abre – como se ele não vivesse constantemente aberto.

a mulher do cara está aparentemente feliz. por que destruir a vida dela? por que não seguir com isso até o dia em que ele saia de casa em paz? não, o melhor é em nome de uma suposta verdade, detonar todas as relações e criar um filho traumatizado com pais que se odeiam. ok. ele podia ter saído de casa e não fazer isso com ela. mas, ops, ele já fez. isso é ele. ela casou com ele e é assim que é. todo mundo vive o dia todo rodeado de mentiras. pequenas, grandes, irrelevantes, relevantes, algumas oriundas de omissão, outras intencionais. e daí? mentir está dado. não existe “viver na verdade”.

a história me fez lembrar minha própria história. no fim do meu casamento, mais um belo fracasso que posso ostentar com garbo, eu questionei sinceramente a ela: por que você não mentiu pra mim? por que não acordou e me disse que estava num lugar qualquer com conhecidos nossos e não num motel com um imbecil? ela não sabia mentir, o que não quer dizer que não mentia, só que não sabia arquitetar a mentira. ruim pra mim. meu casamento acabou – não apenas por isso, óbvio, mas isso foi um disparador de desgraças. dei azar, casei com alguém que amava muito mas não sabia elaborar uma mentira. ela não teve o mesmo azar, se fosse eu, teria acordado e me internado no souza aguiar. ela ia me achar lá e saber que sumi porque passei mal.

a mulher de Pi aparentemente tem sorte. ele sabe mentir. desejo felicidades ao casal. e ao bebê.

03/02/2016

Três horas de ônibus.

Sem almoço.

Uma hora de telemarketing.

4 horas a noite no computador resolvendo demissão de cuidadoras da vó. Burocracias que não acabam mais.

Princípio de bate-boca por email com a sócia (tô tão fora de mim que não dei trela. Veja bem, eu não dei trela pra uma confusão. Sabe a última vez que isso aconteceu?)

Acordei hoje as 7h e agora às 1h25 retornei pra cama. 

Que dia péssimo.

Vem carnaval…
——

De onde menos se espera só sai merda.

A morte é uma ilusão, só sabe quem viveu

23/01/2016

Tenho muitas, muitas lembranças da minha vó. Na minha infância (até os 12), dá pra dizer que fui criada pelo trio formado por ela, meu vô e minha mãe. Daí em diante, foi o segundo trio: Bhaya, Cristina e Ronald. Vânia desde sempre e pra sempre.
A lembrança mais forte é dela saindo para comprar gado. Isso era uma revolução. Eles eram um casal de açougueiros. Que meu avô deixasse de ir pra fazenda negociar com fazendeiros e peões não era trivial. 
Em nanuque, era ela a primeira a acordar e a última a dormir. Mandava prender e mandava soltar. Comprava e vendia. 

Em salvador, quando não tínhamos grana pro supermercado, era para ela que telefonávamos – meu avô era muito mole e ia chorar horrores. Ela não. Perguntava a minha mãe o valor, reclamava que tínhamos gastado demais e cobria o cheque. 

Quando eu era criança, imaginava que queria ser uma mulher como ela. Firme. De decisão. Segura. Voz sem titubear. Com certezas e mão pesada. Cabelos curtos. Braço forte e mão boa pra cozinha.

Não chego aos pés dela. Da sua generosidade – difícil encontrar alguém das duas famílias que não tenha sido ajudado diretamente por ela. Da sua beleza. Da sua destreza. Da sua firmeza – quem perde um filho e sobrevive? (Bom, ela foi meu exemplo e fortaleza quando minha mãe morreu). 

O fato é que hoje, nesse dia lixo, quando todo mundo ficou imóvel e eu a tomei nos braços, já com parada respiratória, muito, mas muito diferente da vó que conheci. Quando passei o dia segurando meu choro e resolvendo as milhares de burocracias, era a imagem dela que me iluminava. Pensei durante o dia: minha vó resolveria tudo aqui, ainda ia chegar em casa e fazer comida pra todo mundo e ser a última a ir dormir. E me perguntei: será que nessa hora ela choraria?

aí eu não resisti, vó, depois de 8 horas em pé no hospital, cheguei e fiz macarrão pra todo mundo. Fui a última a deitar e agora estou aqui, eu e minhas lágrimas.

sigamos!
—-
nao basta enterrar minha vó, tem que encontrar meu pai, levar Amanda pela primeira vez em salvador depois de 15 anos. Lidar com uma enxurrada de coisas que me desequilibram e fingir que tá tudo bem. 
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a gente nasce só. E morre só. O máximo que a gente consegue é beber junto. Porque viver, a gente vive mesmo é só. 

carta para doralice

26/10/2015

doralice,

talvez você não saiba. mas eu devotei o que de melhor existia em mim à você.
e com isso me tornei alguém melhor.

talvez você não lembre, mas eu prometi cuidar do seu jantar.
fiz o jantar até o último dia. pena que não deu tempo de provarmos a receita nova de steak tartare.

você também não deve recordar, mas eu contei todas as suas pintinhas.
esqueci depois quantas são. mas ainda sou capaz de lembrar de cada uma.

talvez você não saiba, mas você me fez gostar de azul e de queijo branco.
e todo ciclo é tão perfeito que nossos últimos dias foram azul e vermelho – minha cor de fato favorita.

doralice, o que você não sabia, com certeza, é que poder, a gente pode tudo. é que eu escrevi votos de casamento quando você foi pra longe – à mão, está lá o papel dentro do meu livro favorito. e que amar só, não é suficiente.

o que nós duas sabemos é que o ciclo fechou. com perfeição, como são os bons ciclos.

com todo meu amor,

nina