amai-vos uns aos outros
a cena que se segue aconteceu no quarto de uma das minhas tias que ainda vive na paraíba. ela é evangélica, como parte da família de lá. eu estava sentada na cama, de olhos fechado, minha tia/mãe em pé. ela passava uma sombra em meus olhos. estávamos há alguns instantes da festa de aniversário de 90 anos da minha vó. não sei porque diabos ela começou a falar de uma outra tia. essa não é evangélica. nem sei se ela acredita em deus. ela tem uns 55 anos e vive há quase 15 com outra mulher.
- e ela disse “não aceito”.
- quem disse?
- pati [minha prima que é missionária]. me disse que não aceitva mesmo a situação dela [minha tia, a que vive com amulher]. e eu disse pra ela: olha, pati, eu também não aceito. mas do que que adianta? e a gente tem filha mulher, quem sabe o dia de amanhã?
acabou a sombra e abri os olhos. ela olhou pra mim.
- eu só prefiro não saber.
cai o pano. corta para o almoço no dia seguinte. era um churrasco. havia uma bola. estou brincando com dois primos que não têm mais que 10 anos. luisa, a filha da prima missionária encosta.
- vamos brincar, lulu – chamo.
- não quero. eu gosto de vôlei.
- mas você não fazia parte do time de futebol da escola? – pergunto surpresa, porque o futebol a empolgava bastante até a última vez que fui à paraíba, era capitã, comprava as camisas do time.
- ah não. eu agora jogo vôlei só. não sou boa de vôlei, não, mas vou aprender.
a mãe, pati, encosta em mim e quando lulu sai, me explica:
- acabou o futebol. tirei ela da aula.
- que isso? reprimindo o espírito atleta? – falei brincando, achando que poderia ter alguma relação com um problema ortopédico que lulu tem.
- a atleta não. reprimi só esse desejo por futebol que é muito do estranho.
eu sem resposta. cai o pano.
estou me despedindo para ir embora. todo mundo na varanda, deixo minha vó por último. beijinhos e sorrisos. vou na minha vó. dou um beijo, sincero, emocionado. viro as costas e ela diz: eu vou ao rio.
absoluto silêncio na varanda. minha vó não vem ao rio há anos. os filhos acham um absurdo ela vir já que minha tia mora com outra mulher. ela mesma já disse que quer vir para acabar com essa pouca vergonha. quando ela disse que viria ninguém sabia o que dizer. eu, envergonhada, soltei:
- vamos sim. lá o que não falta é cama – e parti feliz para o aeroporto, porque minha casa é aqui e não lá.
minha tia é uma estranha no meio familiar. poucos a tratam com carinho e o mínimo de sinceridade. a maioria a tem como um engasgo, um nós na garganta. eu, com meu jeito falastrão, sou quase sempre animadora e conciliadora da família. fiquei pensando que em breve serei como minha tia: de animada a engasgo.
essa situação me faz pensar que a moral é algo muito sacana. porque a moral está acima do amor – me bate e me chama de piegas. a moral cega irmãos, pais e sobrinhos. é a moral que os faz pensar que se trata de uma escolha. uma decisão pela falta de vergonha. tolos. muito mais fácil seria casar com o pastor e ter três filhos. ou alguém acha que é fácil dizer pra si mesmo e pros outros que tem vontade de ser tudo aquilo que muita gente considera deplorável – adjetivo com o qual minha tia é constantemente classificada?
foi isso que me fez pensar a cena dos sonhos. minha tia jamais a protagonizaria, quem sabe um dia eu seja mulher o suficiente:
- chega de disse-me-disse por conta do meu casamento.
- que casamento?
- ora, não se faça de desentendida, você bem sabe que eu sou casada. já dizia nosso pai: amigado com fé, casado é. e eu sou casada com a maria há exatos dez anos e dois meses.
- isso não é casamento, isso é obra do demônio.
- demônio é isso que você tem na cabeça. ou você acha que eu quis tudo isso? as noites em claro pensando que eu podia ser doença? a vergonha de olhar para vocês todos cada vez que tenho que vir para essa merda de cidade? e os natais que passei sozinha quando queria ver meus sobrinhos? pior, e os natais que passei aqui sem a mulher que eu amo? e todas as vezes que eu precisei de um irmão e tive que ligar para um estranho por medo do que ouviria de vocês? e a cara para encarar minha mãe de 90 anos, eu acho aonde?
dá-se o cataclisma no momento em que ecoa na sala a frase “mulher que eu amo” saindo da boca de uma mulher. todo mundo sai da sala em silêncio. nunca mais toca-se no assunto. mas, certamente, todo mundo pensará nele pelos próximos anos. em quem está o demônio? essa é a pergunta que fica no ar.

aceitá-los ainda que ignorantes e compactuar com o silêncio da moral ou combater, tentado forçar uma desesperançada lucidez (a minha pelo menos) nos familiares?
Mas por quê? Só pq é família? Não sei, acho fraco. Talvez devêssemos instituir um natal do demo entre amigos. Quando ele nasceu, hein?
não é só porque é família. tem alguém dentro de mim que se sente a vontade lá, confesso. mesmo que por poucos dias apenas. minha tia me dizia que fica bem sem ir lá por anos, quando volta se sente mal de ficar sem ir por anos. acho que esse sentimento deve se aprofundar com o tempo.
e fecho com o natal, claro. é só instituir a data!