sobre o “direito” de se falar o que bem entender
Teve esse discurso assombroso da Myriam Rios semana passada, que esteve presente em muitas das minhas leituras nos últimos dias. Esse é meu trecho favorito:
“Aqui em casa, eu gostaria que meus filhos crescessem pensando em namorar uma menina para perpetuar a espécie, como está em Gênesis. No momento em que eu descobrir que o motorista é homossexual e poderia, de uma maneira ou de outra, tentar bolinar o meu filho, eu não sei. De repente, poderia partir para uma pedofilia com os meninos. Eu não vou poder demiti-lo. A PEC não permite porque eu vou estar causando um prejuízo a esse rapaz homossexual”.
Daí que para completar eu tenho um hábito de tortura. Eu gosto de ouvir pastores evangélicos na TV. É tipo o hábito que meu amigo Bodão tem de ler o Merval Pereira – “só pra ficar muito puto”, como ele diz. E fiquei lá ouvindo o Silas Malafaia esses dias. Que ele acha que ser homossexual é coisa do satanás não é novidade. Mas a fala dele é bem didática para entender porque nem pelos caralhos a lei anti-homofobia é votada no congresso. Malafaia argumenta que os pastores da sua igreja e de todas as outras não poderão mais condenar o homossexualismo, porque será crime. A noção de liberdade de expressão do pastor diz o seguinte: se a minha religião considera certa prática como pecado, eu tenho o direito de não respeitar a dignidade do outro. Amor ao próximo é o cacete!
O que ele omite é que a lei não é para prender pastores que em seus templos afirmem que as pessoas não devem ser homossexuais ou que a bíblia condena isso. Podem dizer a vontade e continuarão a dizer. O que não poderá ser feito no caso da aprovação da lei é dizer que por isso é preciso exterminar os gays, ou tratá-los como lixo (como ele mesmo afirma), ou mesmo excluí-los do convívio social – demiti-lo de uma empresa, por exemplo, como Myriam Rios defende. Outra coisa importante e que esse bando de escroto evangélico precisa aprender é que religião é prática PRIVADA. Ame o deus que você quiser, desde que seja no ambiente privado. O ambiente público deve ser sempre o ambiente do pluralismo, coisa que religião nenhuma admite, uma vez que seu deus (ou deuses) é sempre único e onipotente. Por isso, não pode mesmo ir para TV falar que gays devem ser curados. No seu templo, no seu culto em casa, faça o que quiser, mas na TV, concessão pública, faixa de transmissão que pertence a todos os brasileiros – pasmem, até aos gays – não pode!
O assustador é que essa gente fala em DIREITO. “Meu direito de não querer um gay no meu convívio ou no mundo, porque é pecado”. E eu acho que se você não pode com o inimigo, você deve se juntar a ele. Sim, porque a bancada evangélica é poderosa. Eles têm horário nobre na TV. Os gays e todo o resto da população sensata estão bem fodidos. Porque metade da grade da televisão é novela, a outra metade é venda de tapetes e discurso de pastores. Jean Willys é um cavaleiro solitário contra um bando de bichas no armário e pastores raivosos no Congresso. Por tudo isso, sugiro uma campanha para mostrarmos aos evangélicos que se eles têm direitos, todos nós temos: DEMITA SEU FUNCIONÁRIO EVANGÉLICO! Isso mesmo, demita, bote na rua, chame de evangélico escroto. Por que? Explico:
1. Suponhamos que você tenha um filho. E a babá é evangélica. Você vai querer que seu filho cresça influenciado por uma pessoa intolerante? Você vai querer que ela fique falando pro seu filho que homossexualismo é doença? E se ele for gay??!! Pior, você vai tolerar que seu filho seja educado por alguém que alimenta o crime organizado? Não sou eu que estou dizendo, as denúncias estão aqui. Foi a polícia dos EUA que disse.
2. Agora suponhamos que você é dono de uma empresa. Sério, você confia em gente que não bebe cerveja? Pior: como é que você, na festa de fim de ano, fazendo o Michael Jackson, vai impor respeito depois a essa pessoa intolerante, sóbria? Tem que demitir esse evangélico antes que aconteça um estrago.
3. Situação limite: como trabalhar ou mesmo conviver com alguém que acha que mentir é pecado? Já imaginou? Toca o telefone, você diz para ele: “fala que eu estou em reunião”, simplesmente porque não quer atender. E ele te responde: “desculpa, mas eu não minto”. Fim dos tempos, bota esse camarada na rua. É um direito seu não querer conviver com esse tipo de gente que além da intolerância cultiva esse sentimento amargo de apenas contar a verdade.
Para terminar, queria dizer que essa campanha tem um braço educativo. É aquele voltado para o público infanto-juvenil. Por responsabilidade jurídica, eu não posso contar aqui. Mas digita “padre + pedofilia” no Google que a campanha aparece. A senhora Myriam Rios está muito mal informada ao pensar que um motorista homossexual é um risco de pedofilia para os filhos dela. Ela precisa conhecer o braço da nossa campanha: “Tire seu filho da escola católica”.
