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com atraso: 26 lugares para os 26 anos

01/07/2011

teve um ano que eu escrevi 23 filmes para os 23 anos. no ano seguinte selecionei 24 músicas. anos passado 25 feitos e não feitos. esse ano eu não esqueci. eu só passei por cima. dando continuidade – com atraso -  às minhas memórias, 26 lugares para os 26 anos. não são os melhores nem os piores, apenas 26 que me ocorreram.

1. o quarto de salvador em que me criei: duas camas de mogno, tábuas no chão, prateleiras também de mogno. em cima da minha cama, uma delas com minha coleção de revistinhas. um criado mudo de mogno entre as camas. o nome de amanda em cima da cama dela em letras de porcelana e o meu idem. do lado da minha, uma janela gradeada, comprida, que chamávamos de “vitrô”. do vitrô vi noites passarem, as luzes apagarem e acender. do vitrô joguei fora as lágrimas da infância.

2. o quarto que dividi com amanda em araguari: fugidas de casa, a primeira cena no quarto vazio com camas de madeira fininhas, guarda-roupa branco e MAIS NADA foi bastante simbólico. começar do zero deve ser isso, imaginei. nenhuma revistinha, nenhuma figurinha do campeonato brasileiro na porta do armário, nenhuma fotografia. eu, ela, as camas, o armário embutido e duas sacolas com desenho do “seninha”.

3. a casa de la paz: uma lareira e quatro suítes. fui rica por seis meses e tive a cozinha dos sonhos. o primeiro momento da vida sem duas camas de solteiro. pra provar que alegria de pobre dura pouco, saímos de lá para um apartamento onde era apenas uma cama de casal. dois anos dormindo com um ser de 1.82m me esmagando.

4. a ponta do humaitá em salvador: mais uma das alegrias que devo à luise.

5. avenida contorno, também em salvador: esqueça o que vc já viu de lindo na vida. descer a avenida que liga a parte alta e baixa da cidade no fim do dia é apenas uma das emoções que a bahia pode te oferecer diariamente sem nenhum esforço e a custo zero.

6. machu pichu: meu sonho é tomar vinho de 3 euros na frança, mas nada se compara a ter conhecido machu pichu.

7. chama eterna, em brasília: existe uma torre com uma chama que nunca se apaga em brasília. é a chama da pátria. um dia, eu e uns loucos, no fim da madrugada, decidimos acender nossos cigarros lá. fomos retirados por soldados do exército. mas acendemos os cigarros.

8. nanuque, em minas gerais: todas as férias da infância. viagens de 18 horas, em ônibus convencional. carne do sol, baralho, quintal, minha maria preta, gado. um mix de todas as referências que levo na vida numa cidade minúscula no interior de MG.

9. praia de coqueirinho, paraíba: depois de anos, visitar a família teve algo de bonito e divertido.

10. illimani, la paz: é um monte nevado. nunca fui, claro. 6 mil metros de altitude. ficava de frente pro apartamento. significa muita coisa pra quem vive lá. em termos históricos e espirituais, não como ponto turístico. é lindo demais.

11. salar do uyuni: na bolívia, um deserto de sal. chega um ponto que vc não vê mais terra. precisa dizer mais nada.

12. pista do santos dumont: era meu lugar favorito no rio, mas aí fecharam. a turbina dos aviões levou minhas lágrimas muitas vezes.

13. havana: porque era um sonho e porque acabo de voltar de lá. mentira. um solo onde pessoas fizeram uma revolução no século em que nasci. ir à rússia é mais difícil.

14. praia de tibau, no rio grande do norte: ilha grande é pinto!

15. bar do ramos: a certeza de que não se está só. é só descer lá que uma garrafa faz companhia.

16. favela da maré: formação de guerrilha.

17. sala do juiz da vara de família de araguari: e o medo de me mandarem de volta pra casa?

18. entrada do aeroporto de salvador: se vc chegou lá, é saída, na verdade. o que importa é que é lindo demais. envolvente. baiano, sabe?

19. praia do porto, em salvador: o melhor banho de mar da vida.

20. ribeira, em salvador: um dos bairros mais charmosos da cidade, sorvete de côco verde. era prêmio quando tirava notas altas.

21. santana, na bahia: primeiro beijo, água de chuva, galinha ao molho pardo.

22. chapada diamantina: o trecho da vida que dava um road movie. encurtando a história: o pai mala se mudou pra minha casa, um ano depois propôs uma viagem de carro, para “nos aproximar”. 15 dias chapada adentro. ficamos amigos. ele que não aguentou a amizade por muito tempo.

23. maracanã: o sentido da expressão “à flor da pele”.

24. ilha grande: menos pela ilha em si, mais pelo vivido. silêncio, pizza e serenidade.

25. linha amarela: encurtando a distância. esmagando a saudade.

26. uma certa cama em jacarepaguá: cura pra insônia.

Um Comentário leave one →
  1. 07/07/2011 22:59

    Não conhecia a série dos aniversários. Adorei.
    Esse texto faz lembrar você me dizendo: “saudade é folia”.
    O que me remete ao francês folie, loucura.
    A maior loucura que eu já fiz na vida foi criar essa saudade que vivo hoje, morando em outra cidade. Coisa que você já fez tanto.
    Por ser loucura e folia ora me orgulho disso, ora canso. Bom será chegar aos 70, com 70 lugares – talvez nem melhores, nem piores, mas ricos e únicos para sempre.

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