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transbordando

24/01/2012

o sol encheu as praias. os trabalhadores encheram os ônibus. o metrô encheu o saco. as formigas encheram a casa. ela me encheu de beijos. a PM encheu os invasores de balas.

fatos comuns.

encho-me de lágrimas

daqui pra frente tudo vai ser diferente

19/01/2012

Bicarbonato de Soda
Álvaro de Campos

Súbita, uma angústia…
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço…
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir…
E–xis–tir …

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconseqüência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

 

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essse poema nem é lindo, mas adoro esse parte: “esterco metafísico os meus propósitos todos”. gosto do e-xis-tir também. me faz pensar que fernando pessoa poderia conversar comigo no gtalk. ou que quando faço algo parecido no gtalk (separar as síbalas para dar uma ênfase irônica) há uma ponta de poesia.

de resto, angústia tem se mostrado uma palavra útil. ela não requer muitas explicações. não é transitiva. defini-se por si só. pelo menos pra mim.

 

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tenho uma lista de coisas que quero fazer (início de ano e bla bla bla). é um mix de utopias. vai desde de “emagrecer” até fazer depilação a laser, passando por ir ao ginecologista – por aí vc mede meu compromisso com coisas sérias da vida e também como tenho foco. entre elas está escrever nesse blog. é uma lista. está lá nas minhas tarefas do gtalk. gosto de pensar que é UM PASSO.

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minha vó tem uma expressão que sempre gostei: ficar sem arte. numa analogia simples diria que é um ficar sem graça mais profundo. eu sempre gostei de imaginar que ficar sem arte é o beco sem saída. porque sem graça ainda dá para superar, disfarçar. sem arte é nível engolir o choro com todo mundo vendo que vc ia chorar (quando vc não queria fazer cena, queria DE FATO engolir o choro), adianta de nada.

odeio ficar sem arte. sobretudo quando depois do ocorrido consigo imaginar milhares de maneiras de disfarçar ou melhor devolver minha falta de arte com ironias.

minha vó dizia que ficar sem arte ensina. a boa é aprender e guardar a ironia para a próxima situação. ela virá.

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doida pra vê-lo cantar essa música:

vício a mais… desprezo por fim…

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espero que gostem – todas os dois visitante que mantêm a média de 3 visitas mensais a esse blog – da minha possível volta. até a luiza que do canadá pode continuar me acompanhando.

amai-vos uns aos outros

15/12/2011

a cena que se segue aconteceu no quarto de uma das minhas tias que ainda vive na paraíba. ela é evangélica, como parte da família de lá. eu estava sentada na cama, de olhos fechado, minha tia/mãe em pé. ela passava uma sombra em meus olhos. estávamos há alguns instantes da festa de aniversário de 90 anos da minha vó. não sei porque diabos ela começou a falar de uma outra tia. essa não é evangélica. nem sei se ela acredita em deus. ela tem uns 55 anos e vive há quase 15 com outra mulher.

- e ela disse “não aceito”.

- quem disse?

- pati [minha prima que é missionária]. me disse que não aceitva mesmo a situação dela [minha tia, a que vive com amulher]. e eu disse pra ela: olha, pati, eu também não aceito. mas do que que adianta? e a gente tem filha mulher, quem sabe o dia de amanhã?

acabou a sombra e abri os olhos. ela olhou pra mim.

- eu só prefiro não saber.

cai o pano. corta para o almoço no dia seguinte. era um churrasco. havia uma bola. estou brincando com dois primos que não têm mais que 10 anos. luisa, a filha da prima missionária encosta.

- vamos brincar, lulu – chamo.

- não quero. eu gosto de vôlei.

- mas você não fazia parte do time de futebol da escola? – pergunto surpresa, porque o futebol a empolgava bastante até a última vez que fui à paraíba, era capitã, comprava as camisas do time.

- ah não. eu agora jogo vôlei só. não sou boa de vôlei, não, mas vou aprender.

a mãe, pati, encosta em mim e quando lulu sai, me explica:

- acabou o futebol. tirei ela da aula.

- que isso? reprimindo o espírito atleta? – falei brincando, achando que poderia ter alguma relação com um problema ortopédico que lulu tem.

- a atleta não. reprimi só esse desejo por futebol que é muito do estranho.

eu sem resposta. cai o pano.

estou me despedindo para ir embora. todo mundo na varanda, deixo minha vó por último. beijinhos e sorrisos. vou na minha vó. dou um beijo, sincero, emocionado. viro as costas e ela diz: eu vou ao rio.

absoluto silêncio na varanda. minha vó não vem ao rio há anos. os filhos acham um absurdo ela vir já que minha tia mora com outra mulher. ela mesma já disse que quer vir para acabar com essa pouca vergonha. quando ela disse que viria ninguém sabia o que dizer. eu, envergonhada, soltei:

- vamos sim. lá o que não falta é cama – e parti feliz para o aeroporto, porque minha casa é aqui e não lá.

minha tia é uma estranha no meio familiar. poucos a tratam com carinho e o mínimo de sinceridade. a maioria a tem como um engasgo, um nós na garganta. eu, com meu jeito falastrão, sou quase sempre animadora e conciliadora da família. fiquei pensando que em breve serei como minha tia: de animada a engasgo.

essa situação me faz pensar que a moral é algo muito sacana. porque a  moral está acima do amor – me bate e me chama de piegas. a moral cega irmãos, pais e sobrinhos. é a moral que os faz pensar que se trata de uma escolha. uma decisão pela falta de vergonha. tolos. muito mais fácil seria casar com o pastor e ter três filhos. ou alguém acha que é fácil dizer pra si mesmo e pros outros que tem vontade de ser tudo aquilo que muita gente considera deplorável – adjetivo com o qual minha tia é constantemente classificada?

foi isso que me fez pensar a cena dos sonhos. minha tia jamais a protagonizaria, quem sabe um dia eu seja mulher o suficiente:

- chega de disse-me-disse por conta do meu casamento.

- que casamento?

- ora, não se faça de desentendida, você bem sabe que eu sou casada. já dizia nosso pai: amigado com fé, casado é. e eu sou casada com a maria há exatos dez anos e dois meses.

- isso não é casamento, isso é obra do demônio.

- demônio é isso que você tem na cabeça. ou você acha que eu quis tudo isso? as noites em claro pensando que eu podia ser doença? a vergonha de olhar para vocês todos cada vez que tenho que vir para essa merda de cidade? e os natais que passei sozinha quando queria ver meus sobrinhos? pior, e os natais que passei aqui sem a mulher que eu amo? e todas as vezes que eu precisei de um irmão e tive que ligar para um estranho por medo do que ouviria de vocês? e a cara para encarar minha mãe de 90 anos, eu acho aonde?

dá-se o cataclisma no momento em que ecoa na sala a frase “mulher que eu amo” saindo da boca de uma mulher. todo mundo sai da sala em silêncio. nunca mais toca-se no assunto. mas, certamente, todo mundo pensará nele pelos próximos anos. em quem está o demônio? essa é a pergunta que fica no ar.

03/11/2011

Volto aqui por falta de lugar melhor para chorar meus dramas pequeno burgueses e baianos.

Há uns três meses, prometi pra mim que voltaria pra terapia. Até agora não voltei e fico mentindo pra mim todo dia, colocando-me prazos que nunca cumpro. Hoje determinei um novo prazo: tenho até 30/11 pra resolver isso.

Eu acho que eu estou pirando mais do que posso conceber como tolerável. Sinal disso é que eu começo a travar diálogos imaginários com uma frequência absurda de madrugada. Outra coisa que acontece é que fico com dificuldade de dormir, não por estar insone, mas porque me incomodo com coisas absurdas. Houve uma época que o pijama me incomodava como se tivesse apertado (e não estava). Há mais ou menos uns dois anos, eu sonhava com tiros dados por trás e acordava procurando o buraco de bala nas costas. A bola da vez é uma coceira imaginária, como se todo meu corpo tivesse sido picado por mosquitos. Estou lá dormindo na boa e começo a me coçar loucamente. Dormindo, vejo as marcas vermelhas inexistentes pelo corpo. Minha tática tem sido acordar e repetir calmamente: nenhum mosquito te picou, deita e dorme. Tem funcionado.

Minha loucura também tem um talento para dar vexame. Já arrumei briga digna de expulsão pelos seguranças da festa (que lembrança boa da minha formatura). Já quebrei braço (meu mesmo). Já perdi dinheiro. Ontem fiz coisas que não me lembro, mas bebi de uma maneira inexplicável para qualquer ser humano com sinapses em boas condições. Tudo que sei é que fiquei sem dinheiro, bebi coisas que não sei como se chamam, tenho um cotovelo arranhado e muita vergonha pra carregar pelos próximos anos.

Já que vomitei na minha dignidade (olha que poesia), não me resta nada mais do que fazer a maluca consciente, a alcóolatra em recuperação e ficar uns dias sem beber, tratando de arrumar um terapeuta. Se minha vida fosse um filme, ela podia começar com a bela cena que protagonizei esta madrugada para os ácaros que cobrem o chão da minha casa: a luta para colocar o celular na tomada, sem sair da cama, suando para cacete, na esperança que no aparelho encontrasse um rastro das peripécias de ontem. Não tinha nada. Péssimo sinal. Se o espetáculo ao menos fosse engraçado teriam escrito um SMS. Comecei a chorar pensando que lágrimas podiam em ajudar a lembrar. Chorei de raiva, de vergonha e em vão. Não lembrei de nada e ainda perdi o sono.  Essa sou eu: suor de cachaça, dependente do celular e preguiça de sair da cama.

Se souber de um terapeuta me manda um e-mail.

sobre o “direito” de se falar o que bem entender

08/07/2011

Teve esse discurso assombroso da Myriam Rios semana passada, que esteve presente em muitas das minhas leituras nos últimos dias. Esse é meu trecho favorito:

“Aqui em casa, eu gostaria que meus filhos crescessem pensando em namorar uma menina para perpetuar a espécie, como está em Gênesis. No momento em que eu descobrir que o motorista é homossexual e poderia, de uma maneira ou de outra, tentar bolinar o meu filho, eu não sei. De repente, poderia partir para uma pedofilia com os meninos. Eu não vou poder demiti-lo. A PEC não permite porque eu vou estar causando um prejuízo a esse rapaz homossexual”.

Daí que para completar eu tenho um hábito de tortura. Eu gosto de ouvir pastores evangélicos na TV. É tipo o hábito que meu amigo Bodão tem de ler o Merval Pereira – “só pra ficar muito puto”, como ele diz. E fiquei lá ouvindo o Silas Malafaia esses dias. Que ele acha que ser homossexual é coisa do satanás não é novidade. Mas a fala dele é bem didática para entender porque nem pelos caralhos a lei anti-homofobia é votada no congresso. Malafaia argumenta que os pastores da sua igreja e de todas as outras não poderão mais condenar o homossexualismo, porque será crime. A noção de liberdade de expressão do pastor diz o seguinte: se a minha religião considera certa prática como pecado, eu tenho o direito de não respeitar a dignidade do outro. Amor ao próximo é o cacete!

O que ele omite é que a lei não é para prender pastores que em seus templos afirmem que as pessoas não devem ser homossexuais ou que a bíblia condena isso. Podem dizer a vontade e continuarão a dizer. O que não poderá ser feito no caso da aprovação da lei é dizer que por isso é preciso exterminar os gays, ou tratá-los como lixo (como ele mesmo afirma), ou mesmo excluí-los do convívio social – demiti-lo de uma empresa, por exemplo, como Myriam Rios defende. Outra coisa importante e que esse bando de escroto evangélico precisa aprender é que religião é prática PRIVADA. Ame o deus que você quiser, desde que seja no ambiente privado. O ambiente público deve ser sempre o ambiente do pluralismo, coisa que religião nenhuma admite, uma vez que seu deus (ou deuses) é sempre único e onipotente. Por isso, não pode mesmo ir para TV falar que gays devem ser curados. No seu templo, no seu culto em casa, faça o que quiser, mas na TV, concessão pública, faixa de transmissão que pertence a todos os brasileiros – pasmem, até aos gays – não pode!

O assustador é que essa gente fala em DIREITO. “Meu direito de não querer um gay no meu convívio ou no mundo, porque é pecado”. E eu acho que se você não pode com o inimigo, você deve se juntar a ele. Sim, porque a bancada evangélica é poderosa. Eles têm horário nobre na TV. Os gays e todo o resto da população sensata estão bem fodidos. Porque metade da grade da televisão é novela, a outra metade é venda de tapetes e discurso de pastores. Jean Willys é um cavaleiro solitário contra um bando de bichas no armário e pastores raivosos no Congresso. Por tudo isso, sugiro uma campanha para mostrarmos aos evangélicos que se eles têm direitos, todos nós temos: DEMITA SEU FUNCIONÁRIO EVANGÉLICO! Isso mesmo, demita, bote na rua, chame de evangélico escroto. Por que? Explico:

1.       Suponhamos que você tenha um filho. E a babá é evangélica. Você vai querer que seu filho cresça influenciado por uma pessoa intolerante? Você vai querer que ela fique falando pro seu filho que homossexualismo é doença? E se ele for gay??!!  Pior, você vai tolerar que seu filho seja educado por alguém que alimenta o crime organizado? Não sou eu que estou dizendo, as denúncias estão aqui. Foi a polícia dos EUA que disse.

2.       Agora suponhamos que você é dono de uma empresa. Sério, você confia em gente que não bebe cerveja? Pior: como é que você, na festa de fim de ano, fazendo o Michael Jackson, vai impor respeito depois a essa pessoa intolerante, sóbria? Tem que demitir esse evangélico antes que aconteça um estrago.

3.       Situação limite: como trabalhar ou mesmo conviver com alguém que acha que mentir é pecado? Já imaginou? Toca o telefone, você diz para ele: “fala que eu estou em reunião”, simplesmente porque não quer atender. E ele te responde: “desculpa, mas eu não minto”. Fim dos tempos, bota esse camarada na rua. É um direito seu não querer conviver com esse tipo de gente que além da intolerância cultiva esse sentimento amargo de apenas contar a verdade.

Para terminar, queria dizer que essa campanha tem um braço educativo. É aquele voltado para o público infanto-juvenil. Por responsabilidade jurídica, eu não posso contar aqui. Mas digita “padre + pedofilia” no Google que a campanha aparece. A senhora Myriam Rios está muito mal informada ao pensar que um motorista homossexual é um risco de pedofilia para os filhos dela. Ela precisa conhecer o braço da nossa campanha: “Tire seu filho da escola católica”.

com atraso: 26 lugares para os 26 anos

01/07/2011

teve um ano que eu escrevi 23 filmes para os 23 anos. no ano seguinte selecionei 24 músicas. anos passado 25 feitos e não feitos. esse ano eu não esqueci. eu só passei por cima. dando continuidade – com atraso -  às minhas memórias, 26 lugares para os 26 anos. não são os melhores nem os piores, apenas 26 que me ocorreram.

1. o quarto de salvador em que me criei: duas camas de mogno, tábuas no chão, prateleiras também de mogno. em cima da minha cama, uma delas com minha coleção de revistinhas. um criado mudo de mogno entre as camas. o nome de amanda em cima da cama dela em letras de porcelana e o meu idem. do lado da minha, uma janela gradeada, comprida, que chamávamos de “vitrô”. do vitrô vi noites passarem, as luzes apagarem e acender. do vitrô joguei fora as lágrimas da infância.

2. o quarto que dividi com amanda em araguari: fugidas de casa, a primeira cena no quarto vazio com camas de madeira fininhas, guarda-roupa branco e MAIS NADA foi bastante simbólico. começar do zero deve ser isso, imaginei. nenhuma revistinha, nenhuma figurinha do campeonato brasileiro na porta do armário, nenhuma fotografia. eu, ela, as camas, o armário embutido e duas sacolas com desenho do “seninha”.

3. a casa de la paz: uma lareira e quatro suítes. fui rica por seis meses e tive a cozinha dos sonhos. o primeiro momento da vida sem duas camas de solteiro. pra provar que alegria de pobre dura pouco, saímos de lá para um apartamento onde era apenas uma cama de casal. dois anos dormindo com um ser de 1.82m me esmagando.

4. a ponta do humaitá em salvador: mais uma das alegrias que devo à luise.

5. avenida contorno, também em salvador: esqueça o que vc já viu de lindo na vida. descer a avenida que liga a parte alta e baixa da cidade no fim do dia é apenas uma das emoções que a bahia pode te oferecer diariamente sem nenhum esforço e a custo zero.

6. machu pichu: meu sonho é tomar vinho de 3 euros na frança, mas nada se compara a ter conhecido machu pichu.

7. chama eterna, em brasília: existe uma torre com uma chama que nunca se apaga em brasília. é a chama da pátria. um dia, eu e uns loucos, no fim da madrugada, decidimos acender nossos cigarros lá. fomos retirados por soldados do exército. mas acendemos os cigarros.

8. nanuque, em minas gerais: todas as férias da infância. viagens de 18 horas, em ônibus convencional. carne do sol, baralho, quintal, minha maria preta, gado. um mix de todas as referências que levo na vida numa cidade minúscula no interior de MG.

9. praia de coqueirinho, paraíba: depois de anos, visitar a família teve algo de bonito e divertido.

10. illimani, la paz: é um monte nevado. nunca fui, claro. 6 mil metros de altitude. ficava de frente pro apartamento. significa muita coisa pra quem vive lá. em termos históricos e espirituais, não como ponto turístico. é lindo demais.

11. salar do uyuni: na bolívia, um deserto de sal. chega um ponto que vc não vê mais terra. precisa dizer mais nada.

12. pista do santos dumont: era meu lugar favorito no rio, mas aí fecharam. a turbina dos aviões levou minhas lágrimas muitas vezes.

13. havana: porque era um sonho e porque acabo de voltar de lá. mentira. um solo onde pessoas fizeram uma revolução no século em que nasci. ir à rússia é mais difícil.

14. praia de tibau, no rio grande do norte: ilha grande é pinto!

15. bar do ramos: a certeza de que não se está só. é só descer lá que uma garrafa faz companhia.

16. favela da maré: formação de guerrilha.

17. sala do juiz da vara de família de araguari: e o medo de me mandarem de volta pra casa?

18. entrada do aeroporto de salvador: se vc chegou lá, é saída, na verdade. o que importa é que é lindo demais. envolvente. baiano, sabe?

19. praia do porto, em salvador: o melhor banho de mar da vida.

20. ribeira, em salvador: um dos bairros mais charmosos da cidade, sorvete de côco verde. era prêmio quando tirava notas altas.

21. santana, na bahia: primeiro beijo, água de chuva, galinha ao molho pardo.

22. chapada diamantina: o trecho da vida que dava um road movie. encurtando a história: o pai mala se mudou pra minha casa, um ano depois propôs uma viagem de carro, para “nos aproximar”. 15 dias chapada adentro. ficamos amigos. ele que não aguentou a amizade por muito tempo.

23. maracanã: o sentido da expressão “à flor da pele”.

24. ilha grande: menos pela ilha em si, mais pelo vivido. silêncio, pizza e serenidade.

25. linha amarela: encurtando a distância. esmagando a saudade.

26. uma certa cama em jacarepaguá: cura pra insônia.

cuba VI

22/05/2011

dia 7: 22.05.2011 – havana – ano 53 da revolução

fui a ballet ontem. espetacular. assisti ao lago dos cisnes, num espetáculo de 3 horas com orquestra ao vivo. fantástico.

tinham muitos cubanos na plateia. para os cubanos, como lhes disse, o ingresso custa menos de um dólar. para mim, turista, custu 25. mas tá valendo.

os cubanos aplaudem com muita veemência e gritam durante a apresentação. toda vez que um solista termina sua apresentação eles reagem de forma muito eloquente, parece que estão num estádio de futebol. ao meu lado, havia um casal de franceses e atrás mais um grupo francês. eles ficaram assustadíssimos com essa reação. quando o cisne negro terminou sua apresnetação o teatro quase veio abaixo e os franceses se acabaram de rir dos cubanos.

depois do teatro fui ao jazz. uma casa perto do meu hotel. não gostei tanto porque era uma cantora que juntava jazz a ritmos cubanos. detesto esse negócio de juntar ritmos. tomei minhas duas piñas coladas de direito e vim me embora dormir.

apenas ontem me saí bem com o transporte em havana. há três formas de se locomover aqui. de ônibus que custa 1 peso nacional (quase nada, dez centavos de real) e está sempre muito cheio. parece o metrô rio às seis da manhã, só que o dia todo. de táxi lotação, que custa 10 pesos (1 real) e de táxi normal, que te cobram em CUCs e custa em média 5 (mesmo que 5 dólares). bom, a melhor forma, e eu já tinha percebido no primeiro dia, é táxi lotação. porque vc vai de carro e paga barato. a questão é que para andar de lotação você tem q conhecer as rotas e as ruas principais. nos primeiros dias eu tentava pegar a lotação dizendo o nome da rua do meu hotel. fracasso. a rua não é rota. quer dizer, é de alguns táxis que vêm de pontos mais distantes da cidade, pontos que eu não visitei. do centro da cidade a minha rua não é rota, mas a rua da esquina é. Calle 23, uma das ruas mais importantes da cidade. bom, daí que eu levei uma semana para aprender que na hora de voltar era só perguntar se a lotação passava pela 23 e para sair daqui, também aprendi uns 3 lugares de referência e ontem, pela primeira vez, saí o dia todo de lotação – nos outros dias me perdi num ônibus e duas vezes em lotação fui parar a umas 10 quadras do hotel.

por hoje é só. abaixo, umas duas fotinhas para alegria da plateia.

cuba V

21/05/2011

dia 6: 21.05.2011, havana – ano 53 da revolução

ontem não escrevi porque depois da aula fiquei na função “comprar charutos no mercado ilegal” e logo no início da noite fui ao encontro dos meus colegas num bar. fiquei algum tempo com eles e fugi para um restaurante. confesso que dei uma enjoada da comida local e desde o jantar de quarta-feira fujo para um hamburguer que vendem numa casa ao lado do hotel, ou para umas pizzetas (fatias de pizza de mussarela), numa pizzaria na esquina. ontem tava com muita vontade de comer um prato de comida e que não fosse o da residência estudantil. bom, fugi prum restaurante atrás de carne, arroz, uma cerveja e afins. me empaturrei com uma sopa de abóbora que o garçom disse que era a boa do dia. deixei que indicasse a carne também, umas tais “lonjas de res com num sei que”. perguntei o que era lonja. ele me explica que são tiras de carne. pedi essa. sabe o que era? strognoff, só que feito com páprica. eis uma coisa que não vi aqui: ketchup. bom, comi tanto que não aguentei voltar ao encontro dos meus colegas para emendar em outro bar com jazz. vim rolando até meu quarto e dormi.

hoje pretendo ir ao teatro municipal para uma apresentação do ballet nacional. dizem ser uma maravilha. tanto o teatro quando o corpo de ballet. iria à ópera, mas descobri que era só ontem. hoje não tem. o campo cultural e intelectual é um dos que a revolução conseguiu desenvolver com gosto e consolidar. os cubanos são muito cultos. lêem muito e têm hábitos muito eruditos (por exemplo, o ballet), bem diferente dos hábitos pasteurizados aos quais nos acostumamos. vamos aos exemplos. preço médio de um livro: 15 pesos nacionais. entrada do teatro municipal para os cubanos: 10 pesos nacionais. cinema: 2 pesos nacionais. quanto vale um peso nacional? bom, 1 dólar = 20 pesos nacionais. claro que tudo subsidiado pelo estado e sem visar o lucro. ontem tivemos uma conversa com o vice-ministro de cultura, e ele explicava, por exemplo, que há atividades como shows e teatros que se pagam, com ingressos a 20 pesos nacionais. ou seja, sem pensar só em lucro a coisa é diferente. outras atividades não, como o livro, por exemplo. cuba importa papel e as máquinas para imprimir que eles têm são ainda da antiga alemanha oriental. ou seja, os livros custam caríssimos, mas o governo claro banca isso. eis o nó da coisa: o estado subsidia a vida, o que acontece é que ele está no seu limite. o país importa muito e não tem como bancar isso sem gerar riquezas. ele explicou que a cultura é um osso que não largam, ou seja, é prioridade nos subsídios, mas que também ela quase que se banca (quase, ou seja, não demanda tanto subsídio quanto outras áreas, na verdade, existem áreas que não geram dinheiro algum) com a grana vinda dos ingressos e do conhecimento que eles importam. artistas, especialistas e professores cubanos estão espalhados pelo mundo ensinando. tudo com a tutela do governo. eles recebem uma bolsa mensal e o país para o qual se dirigiram paga ao governo cubano por isso. hoje, são mais de 2 mil pessoas nesse esquema.

aliás, esse esquema é um pouco o que eles criaram para superar a “ausência” de riquezas naturais. era também o esquema que tinham com a união soviética e hoje, em alguma medida, mantêm com a venezuela. ou seja, o país não tem muito o que vender, mas pode se desenvolver intelectualmente e ajudar outros países, trocando isso pelo que eles não têm. também por isso, a preocupação com o conehcimento é uma constante aqui. isso é a raiz, por exemplo, do espetacular desenvolvimento médico do país – e isso não é mito, é pura verdade. o sistema médico deles funciona e muito bem. as filas para cirurgia não duram mais que um mês. o remédio é gratuito – mas apenas para a população e bem controlado, turistas têm dificuldade de conseguir. por conta do bloqueio (e já que a maioria das patentes é americana), desenvolveram muitos recursos naturais para tratar de doenças corriqueiras (as fármacias aqui parecem lojas de antigos boticários) e é o único país da américa latina que não tem nenhuma ameaça de doenças ou epidemias tropicais: dengue, malária, febre amarela, cólera, etc.

esse terreno é um terreno no qual caminham bem. a coisa aperta quando o assunto é economia, desigualdade ou burocracia. temas que na verdade estão bem relacionados.

mudando para charutos. no comércio legal, em lojas do estado, custam uma barbaridade. 5 dólares cada um. por essa razão, em cada esquina que vc anda, tem um cubano te perguntando se não quer “habanos originales”. o que acontece? muitos trabalham em fábricas de charutos e daí conseguem comprar direto e revendem por um valor em que ganham uma boa quantidade de CUCs e ainda saem mais baratos que nas lojas legais. façamos as contas: uma caixa tem 24, na loja legal me custaria 120 CUCs. comprei de um desses senhores que trabalham em fábrica, amigo de uma colega do curso, a caixa a 50 CUCs. os charutos são feitos a mão e têm toda uma parada de conservção, temperatura e não sei que. junto com a cerveja cubana, e a run, compõe o trio nacional que mais gera renda, depois das exportações de açucar.

hoje pretendo andar pelo bairro da colônia chinesa. peretendo também encontrar um bom lugar pra almoçar (ainda sinto falta de comida) e comprar os ingressos pro ballet – devo ir com o equatoriano que fez o curso comigo.

os dias passaram rápido e hoje já é minha penúltima noite em havana… preciso aproveitar o sol.

cuba IV

20/05/2011

havana
19.05.2011 – ano 53 da revolucao

vos escrevo sobre leve efeito do alcool. mais o computador sem acentos e cedilha. relevem o incompreensivel.

hoje tivemos aula com um professor muito chato. mas um cara que falava com muita propriedade sobre america latina. dai que ele tava la falando sobre como eh importante a uniao dos paises latinos e coisa e tal e falou sobre a economia desses paises. um aluno la entrou no debate com ele, o argumento do cara eh q nao da pra levar a serio o PIB oficial de cuba. ele dizia que nao da pra elvar a serio indicadores de um pais que tem duas moedas.

aproveitei a deixa para colocar o assunto na roda na hora do intervalo. expliquei que pra mim era confuso o lance das duas moedas e tbm a forma como as pessoas se viravam com um salario de 10 dolares.

bom, meus colegas me explicaram que ninguem vive com o salario que recebe. eh pouco demais. uma parte esta ligada a burocracia do partido e ai nao se sabe ao certo como garantem suas vidas. corrupcao existe desde que o mundo eh mundo. outra parte depende muito dos familiaresque vivem fora do pais. e outra parte se vira como pode. vende charuto a gringos, aluga escondido um quarto na casa (sim, pq se o estado sabe, a pessoa paga imposto), faz negocio com turisto, etc tec. alguns dos quais eles citaram eu nao entendi.

qual a raiz da parada? o sistema economico deles, aliado a pouca capacidade de produzir riquezas (escassez de minerais, territorio pequeno, etc), aliado ao bloqueio eh a receita de um pais falido, incapaz de manter a qualidade de vida das pessoas. vejam bem, o estado provem o minimo. o minimo eh a comida, a casa e o sistema de saude. e ai tem a ver com o que luise perguntava no outro post. quando falo em consumir nao estou falando em consumismo. nao confundam. estou falando de ter acesso ao que a sociedade atual oferece. ora, vivemos num mundo em que o computador eh uma realidade, ar condicionado, dvd, celular… essas coisas nao sao surpefluas. sao facilidades que o desenvolvimento da sociedade nos oferece e nao eh garantido para todos, isso tbm eh desigualdade. nao da pra exigir que aspessoas vivam como indios, em aldeias. e isso eh a parada. a falencia do estado nao permite que os cubanos tenham garantido nada mais que o muito basico. entao, eles precisam recorrer a milhoes de formas para por exemplo pagarem seus cigarros, a bebida, terem um celular ou um computador em casa. e coisas mais assustadoras como: shampoo, desodorantes… um salario medio eh 15 cucs, um shampoo custa 3 cucs.

enfim, luise, nao tem nada a ver com consumismo, mas ter acesso ao que o mundo oferece e deveria estar disponivel para todos.

amanha eh o ultimo dia de aula. uma pena porque o curso eh muito bom. com as conversas de hoje e minha caminhada pelo centro, onde os cubanos atacam os turistas a todo momento pedindo que se comrpe algo deles, me fez pensar nas conquistas da revolucao. visitei tbm o museu da revolucao. este continua me parecendo ainda o evento mais bonito do seculo XX, como diria ferreira gullar em sua poesia. mas a impressao que tenho eh q dia a dia se torna mais insustentavel, com participacao popular cada vez menor, e cada dia mais incapaz de garantir a qualidade de vida das pessoas, o que nao tira o orgulho do cubano de se encherem a boca para dizer que foram os unicos a emrpeender uma revolucao popular, do povo para o povo.

eh claro que eh preciso colocar os limites do regime em perspectiva, o lance do bloqueio, os limites economicos do pais e a pressao do capital. esse contexto me faz desanimar um pouco. um pais, sozinho, nao tem como sobreviver a forca do sistema. eh lamentavel que tudo que foi construido em cuba se va perdendo aos poucos por essa forca devastadora.

o post de hoje eh um pouco desanimado. inevitavel.

a parte boa do dia foi a visita ao floridita. o bar que o hemingway mais gostava e onde inventou o daiquiri. tomei alguns. ouvid buena vista. comprei um maco de cigarro pra fazer comapnhia. se nao fosse pela solidao, havana seria neste momento o lugar mais lindo do mundo.

amanha tem mais.

cuba III

18/05/2011

dia 3: 18.05.2011 – ano 53 da revolução

hoje o relato será econômico, quero aproveitar os dados disponíveis para colocar fotos.

tenho caminahdo muito havana. não gosto de andar mas costumos fazer isso quanfo vou a uma cidade desocnhecida. apenas andando é que se pode conhecer uma cidade. destas caminhadas, algumas obervações:

- para quem é de fora, é muito complicado o lance das duas moedas. os lugares que avisam: “preços em CUCs”ajudam. mas, em vias gerais, a coisa funciona assim: tudo que é mais chiquzinho, só tem gente de fora e vende coisas no padrão americano (refrigerante em lata, suco de caixinha, enlatados, etc) é em CUCs. feito para turistas. nos lugares cubanos o lance é assim: um bando de cubanos juntos, comendo sanduíches sem guardanapos, com pães feitos aqui, sucos em copo de vidro e comida local. aí, será em pesos nacionais. ontem jantei num desses lugares e hoje lanchei no intervalo da aula também. tomei um suco de manga maravilhoso e gastei nas duas ocasiões cerca de 10 pesos nacionais. dez pesos nacionais valem menos de dois reais.

- não existem outdoors em havana, óbvio. mas tem muita propaganda da revolução. vejam bem, não do governo. mas a todo lado há um muro pintado ou uma espécie deoutdoor exaltando a revolução. eles têm muito orgulho dela. e ela é assunto corrente. por exemplo, recentemente foi lançado um livro de um estudo que traz dados sobre o poder da máfia americana no caribe. isso nos anos 50. a paraad é assustadora e mesmo os intelectuais cubanos se surpreendem. nesses momentos, eles se enchem para falar da revolução e de como se libertaram disso.

- os cubanos, ao menos os de havana, são muito bonitos. têm muito em comum com os brasileiros.

- os jovens, como qualquer jovem na américa latina, estão cheios de brilho, camisas de marca pirata (armani, calvin klein, lacoste etc), tênis da moda e afins. isso o tipo de coisas que embaralha minha cabeça pra entender o funciona o sistema econômico. como essas coisas chegam aqui? por que não há rejeição se eles são tão putos com o bloqueio? rola um comércio paralelo?

- o centro histórico da cidade é mais sujo que seu conjunto. cheio de gringo também. lembra o centro histórico de qualquer cidade fora daqui. feito pra gringo, sujo, artificial… foi o que menos gostei na cidade.

- a cerveja é muito boa. mais forte que a nossa e além da lata, só em longneck. cristal tem sido a que mais agrada meu paladar.

- eles têm muitos cinemas de rua. muitos. sabe quando custa a entrada do cinema? como 50 centavos de real. o equivalente a dois cafezinhos no meio da rua. hoje vou ao cinema, ontem acabei perdendo a hora. aqui perto do meu hotel, há dois. um está passando “lope”, filme brasileiro e outro um francês que não conheço. vou no francês por puro preconceito.

amanhã tem mais. besos

eles têm o hábito de permanecer com as casas abertas e o espaço da casa se confunde muito com a rua. são muito simpáticos também. troquei ideia com diversas pessoas no meio da rua, inclusive essas senhoras

não sei pq o wordpress está virando todas as fotos verticais

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